Cartas Argentinas

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Argentina de março até aqui (com flashback)

September 25th, 2008 · No Comments · Argentina

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Quando tirei “férias forçadas” desse blog, acontecia um cacerolazo em Buenos Aires, o primeiro protesto que pôde ser assim denominado desde aquelas massivas e históricas jornadas de fins de 2001 e começo de 2002 na Argentina, das quais tive o orgulho de participar. Para soprar a poeira do livro, aqui vai um ingênuo resumo da ópera que passou nesse tempo em off, com direito a flashback.

Era uma vez um país que tinha passado por uma crise que nenhum outro país até hoje pôde entender ou dimensionar. Depois de muitos problemas, um desconhecido governador de um distante estado do sul desse país (e por isso apelidado de “pingüim”) ganha as eleições e, num cenário internacional favorável aos países em desenvolvimento e algumas reformas prévias de seu antecessor, esse novo presidente consegue reativar uma severamente abalada economia. Considerando o cenário de terra arrasada, o presidente conseguiu ganhar pontos e mais pontos de popularidade junto à população. A engrenagem econômica voltava a se mover.

Crescem então os planos do presidente de permanecer no poder, o que não seria difícil, já que as leis de seu país permitem a reeleição. Mas o mandatário teve uma idéia ainda mais brilhante: fazer de sua esposa sua sucessora no poder e assim voltar a ser candidato após o governo dela. Assim, a alternância dos dois no poder seria, virtualmente, indefinida.

Num processo eleitoral apático (e muito diferente do brasileiro no que tange à organização, modo de votar etc.), aquela que era senadora e esposa passa a ser a primeira presidenta democraticamente eleita de seu país com o curioso lema “El cambio recién empieza” (“A mudança acaba de começar”).

No entanto, a calmaria no ar era daquelas que prenunciam uma grande explosão. E foi como se o relógio da Cinderela tocasse as doze badaladas, mas não de uma só vez, e sim em quotas. A cada problema que surgia, outro se somava e a bola de neve só aumentava.

Ainda que seus eleitores esperassem que a presidenta pusesse em ação o difícil binômio “mudanças com continuidade” (do crescimento econômico do país), a verdade é que as coisas já não vinham muito bem, com retorno da inflação e uma intervenção federal no órgão que a calcula. Além disso, uma séria crise energética escurecia ainda mais um horizonte para o qual todos esperavam medidas que realmente voltassem a colocar o país no mapa, relacioná-lo com o mundo, não somente preocupado dedicado a “colocar a casa em ordem”.

O buraco era mais embaixo. Inexplicavelmente, não havia mais tanto dinheiro para continuar subsidiando a economia (sim, a economia que “crescia” vivia e vive de subsídios). A três meses de sua posse, a presidenta resolve aumentar uma taxa de exportação dos principais produtos agrários do país a níveis que quebrariam uma maioria de pequenos produtores. Eles protestaram, cortaram estradas, negaram-se a comercializar sua produção. A presidenta poderia ter dado um passo atrás, enviado o projeto ao congresso… mas não. E essa queda de braço durou quase quatro meses. Meses de protestos massivos nas estradas e cidades do interior do país; contra-protestos na capital, em muitos casos, presenciados quase que exclusivamente pelos que conformam os “currais eleitorais” do governo; alimentos faltavam nas gôndolas dos supermercados; a situação beirou a loucura.

Muitos factóides políticos depois, a tal lei foi parar no Congresso da Nação para ser apreciada, como deveria ter sido desde o começo. E numa histórica madrugada no Senado, o vice-presidente (que naquele país também tem o cargo de presidente da Câmara Alta), viu-se obrigado a desempatar uma acirrada votação. Seu voto foi em contra do projeto de seu próprio governo.

A lei não passou e a crise mais sem sentido já desatada havia contaminado os terrenos político e econômico. Como se fosse pouco, voltaram a surgir versões de que a campanha da presidenta fora financiada pelo governo venezuelano e quiçá até com dinheiro de narcotráfico. A falta de respostas habilidosas e eficientes do governo a todos esses problemas e rumores só pioravam as coisas.

Sim, o relato é inocente, superficial e soa bobinho. Mas foi proposital para que pudéssemos partir daqui para quem não tem a menor noção do que está acontecendo na Argentina. A situação atual é uma mistura muito aprofundada de todos os problemas relatados acima: dirigentes do campo ameaçam retornar à greve e cortar estradas (note-se que não são sem-terra, são pequenos proprietários rurais, em sua maioria plantadores de soja, mas também de trigo, girassol e produtores de carne e leite); ninguém sabe de quanto é a inflação, já que o tal órgão oficial intervindo anuncia uma inflação de menos de 1% ao mês e consultoras privadas chegam a estimar mais de 1% por semana; na justiça dos EUA, tem início um processo em que depõe uma testemunha que pode confirmar a ligação entre o governo venezuelano e o financiamento da campanha de Cristina Kirchner; e a morte de três jovens empresários trouxe à tona ramificações entre poder + campanha eleitoral + venda ilegal de substâncias químicas/medicamentos + dinheiro de narcotráfico + cartéis mexicanos.

Tudo isso ocorreu nos últimos dez meses, se levarmos em conta que o dia de posse presidencial aqui é 10 de dezembro. O “escândalo da mala” de dólares que supostamente viriam da Venezuela à Argentina com o destino de financiar a campanha de Cristina Kirchner (na melhor das hipóteses) fez um ano no dia 4 de agosto deste ano.

Ufa. Vejamos se conseguimos partir daqui, com jeitinho. Inspirem, expirem.

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