Dmitri Medvedev (Rússia) cumprimenta Cristina por seu primeiro ano de mandato? – Crédito: Presidencia de la Nación
Dez de dezembro é o dia em que se comemora a volta da democracia na Argentina após a queda do último governo militar, em 1983. Hoje há um número redondo para se comemorar: 25 anos, como se Bodas de Prata fossem. Dez de dezembro é também a data em que os presidentes eleitos desde então assumem o poder. Dito isso, o tumultuoso governo de Cristina Kirchner completa hoje um ano. Essa folhinha de calendário coincide ainda com os 60 anos da aprovação da Declaração Universal dos Direitos do Homem pelas Nações Unidas. Tudo isso junto dá um caldo e tanto para manifestações na Praça de Maio, como se já não houvesse muitas ao longo do ano – especialmente deste 2008.
ABRAZO SIMBÓLICO AL INDEC
O dia começou às 11h30, com um abraço simbólico do INDEC (IBGE argentino) por seus trabalhadores. O organismo sofreu uma intervenção estatal que remonta a fins de 2006 e que, nos transcurso de 2007 e principalmente 2008 se traduziu em manipulação de índices, principalmente de inflação, preços ao consumidor, dados relacionados à pobreza e o que mais se imaginar. O INDEC não funciona normalmente. Seu trabalhadores estão “em luta”, “resistindo”, desde então. Após o abraço, seguiriam para a Praça de Maio a fim de se juntar à “28ª Marcha de la Resistencia”.
28ª MARCHA DE LA RESISTENCIA
Dita marcha teve início às 12h, na Av. de Maio em direção à Praça de Maio. Chegando aí se transformou num evento que toma todo o dia, literalmente, até as 24h. Organizada por HIJOS e pelas Madres de la Plaza de Mayo/Línea Fundadora, a marcha reclama “julgamento e reclusão perpétua em prisões comuns a todos os genocidas, cúmplices e ideólogos” da última ditadura (1976-83). Também a “restituição da identidade das mais de 400 crianças apropriadas durante o terrorismo de Estado”. “Apropriados” são os bebês e crianças pequenas separadas de suas famílias de pais “subversivos” e muitas vezes adotadas por famílias de militares. Foram cerca de 500, 400 são as que ainda restam ser identificadas.
O evento reclama ainda “verdade sobre o que ocorreu com todos e cada um dos presos/desaparecidos”, além da “aparição com vida de Julio López”. Hoje um senhor, Jorge Julio López é um simples pedreiro que militava numa unidade básica peronista barrial. Foi desaparecido, preso e torturado de 21 de outubro de 1976 a 25 de junho de 1979. No período, Miguel Etchecolatz era diretor de investigações da província de Buenos Aires e encarregado de um dos muitos centros de detenção clandestinos da ditadura de então. Etchecolatz foi julgado e está preso, sendo que Julio López foi testemunha central de seu julgamento, mas “desapareceu” misteriosamente desde o dia 18 de setembro de 2006, na cidade de La Plata (capital da província de Buenos Aires) e portanto, durante o governo de Néstor Kirchner. Até hoje as investigações não deram em nada, envoltas em inúmeras especulações. Julio López passa a ser considerado o primeiro desaparecido político da democracia argentina.
A VOZ DE ALFONSÍN DE VOLTA AO CABILDO
Às 12h52, um grupo do Partido Radical organizou um ato em que a voz do copartidário ex-presidente Raúl Alfonsín voltaria a ser escutada no Cabildo, onde há exatamente 25 anos e àquela mesma hora ele proferiu seu primeiro discurso ao povo como presidente que iniciava este período democrático. Em 10 de dezembro de 1983, Alfonsín falou a uma Praça de Maio repleta de gente e, mais importante, de expectativas e sonhos de uma Argentina nova, diferente.
MARCHA CONGRESO-PLAZA DE MAYO POR LOS ASESINADOS E DESAPARECIDOS
Às 17h, estarão presentes familiares e amigos das vítimas do que por aqui chamam “gatilho fácil” (abuso de autoridade, de forma geral) e da impunidade institucional. Neste dia internacional dos Direitos Humanos, exigirão, mais uma vez, justiça e a “não criminalização da infância e da juventude, além de rejeitar a diminuição de idade de imputabilidade”. Essa é, aliás, a discussão mais quente por aqui, na tentativa de pôr freios à onda de insegurança vivida principalmente em Buenos Aires, em muitos casos praticada por menores de idade. Como é de se imaginar, isso vem à tona a partir de crimes tidos como de extrema violência pela opinião pública.
ENQUANTO ISSO, NÉSTOR, CRISTINA E ALFONSÍN…
Enquanto isso, em pleno aniversário de um ano de seu mandato e com um nível de popularidade inferior a 30%, a presidenta Cristina Kirchner está bem longe da Argentina: está na Rússia, em viagem oficial. Por aqui, quem brinda esse aniversário e fala em nome dela é nada menos que seu marido, titular do Partido Justicialista e ex-presidente Néstor Kirchner. Anormal, não?
E Raúl Alfonsín, símbolo maior dessa festa democrática, foi homenageado em sua casa pelos principais representantes do setor agrário argentino, protagonistas da inédita e dura manifestação contra o aumento das retenções (altos impostos às exportações de produtos agrários) e que delineou todo um ano de estréia e de pesadelo de Cristina no poder.

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